Com resultado matematicamente definido antes do fim da apuração

Com resultado matematicamente definido antes do fim da apuração, governador conquista nas urnas mandato próprio no Palácio Paiaguás; depois de herdar uma máquina estadual com forte capacidade de investimento, terá como desafios avançar na saúde, enfrenta
Otaviano Pivetta (Republicanos) foi eleito neste domingo (4) governador de Mato Grosso no primeiro turno. Com quase 90% dos votos apurados, a vantagem tornou-se matematicamente irreversível, garantindo ao atual chefe do Executivo mais quatro anos no comando do Palácio Paiaguás.
A vitória dá a Pivetta, de 67 anos, um mandato conquistado diretamente nas urnas apenas sete meses depois de assumir definitivamente o Governo do Estado. Ele chegou ao cargo em março, com a renúncia de Mauro Mendes (União Brasil), que deixou o Executivo para disputar uma vaga no Senado.
Quando 82,56% das seções estavam totalizadas, Pivetta contabilizava 934.376 votos, ou 61,12% dos válidos. Wellington Fagundes (PL) aparecia em segundo, com 22,83%, seguido por Doutora Natasha (PSD), com 15,14%. Naquele momento, a diferença de Pivetta para a soma de todos os adversários já era superior ao universo de votos que ainda poderia ser contabilizado, tornando impossível uma mudança no resultado.
A vice-governadora eleita é Gisela Simona (União Brasil), que integrará o Executivo a partir de janeiro. Durante a campanha, Pivetta chegou a afirmar que pretende dividir atribuições com a vice e dar a ela autonomia na administração.
A vitória representa também a continuidade de um projeto político iniciado por Mauro Mendes em 2019. Pivetta foi vice nos dois mandatos do ex-governador e participou diretamente de uma administração que promoveu ajuste das contas públicas e, nos anos seguintes, ampliou os investimentos estaduais.
Agora, porém, será Pivetta quem responderá integralmente pelo resultado da administração.
DO INTERIOR AO PAIAGUÁS
Natural de Caiçara, no Rio Grande do Sul, Pivetta chegou a Mato Grosso em 1982, estabelecendo-se em Lucas do Rio Verde, onde construiu sua trajetória empresarial no agronegócio e iniciou a carreira política.
Foi eleito prefeito de Lucas do Rio Verde pela primeira vez em 1996 e reeleito em 2000. Em 2006, conquistou mandato de deputado estadual. Voltaria à Prefeitura em 2012.
Em 2018, Pivetta foi eleito vice-governador na chapa encabeçada por Mauro Mendes. A parceria foi repetida em 2022, quando ambos conquistaram a reeleição. Com a saída de Mendes neste ano, Pivetta assumiu definitivamente o Executivo e decidiu concorrer à permanência no cargo.
A eleição deste domingo consolida uma trajetória política construída principalmente no Executivo. A partir de janeiro, Pivetta terá pela frente quatro anos para imprimir uma marca própria ao Governo.
SAÚDE ENTRE OS DESAFIOS
A situação fiscal encontrada por Pivetta é diferente daquela enfrentada pelo governo do qual participou a partir de 2019. Mato Grosso chega ao novo ciclo com investimentos elevados e uma extensa carteira de obras em andamento. O desafio será manter essa capacidade sem comprometer o equilíbrio das contas públicas.
Na saúde, uma das prioridades será consolidar a nova estrutura hospitalar implantada nos últimos anos. Durante a campanha, Pivetta destacou a abertura do Hospital Central e do Hospital Regional de Alta Floresta entre os resultados da administração.
A expansão física, entretanto, traz uma segunda etapa igualmente complexa: garantir profissionais, custeio, atendimento contínuo e redução das filas por consultas, exames e cirurgias.
Pivetta também terá de lidar com uma demanda permanente dos servidores públicos. A relação com o funcionalismo, incluindo discussões salariais e condições de trabalho, esteve entre os assuntos da campanha eleitoral. Saúde, funcionalismo, infraestrutura, segurança, habitação e transporte estiveram entre os principais temas discutidos pelos candidatos.
OBRAS E LOGÍSTICA
Na infraestrutura, o desafio será concluir o ciclo de grandes investimentos iniciado nos últimos anos e evitar que novas obras se transformem em passivos para o Estado.
A malha rodoviária continuará no centro da agenda, especialmente por Mato Grosso depender das estradas para transportar uma produção agropecuária que cresce ano após ano. Ao mesmo tempo, o governo terá de avançar em projetos urbanos e de mobilidade na região metropolitana de Cuiabá e Várzea Grande.
Pivetta fez da continuidade dos investimentos em infraestrutura uma das bandeiras de sua candidatura. Sua coligação, denominada “Mato Grosso não Pode Parar”, apresentou justamente a manutenção e a expansão das políticas e investimentos estaduais como eixo da campanha.
SEGURANÇA E CRIME ORGANIZADO
Outro desafio estará na segurança pública. O avanço das facções criminosas para municípios do interior ampliou a pressão sobre as forças policiais e transformou o combate ao crime organizado em uma das principais preocupações do Estado.
O problema vai além do policiamento ostensivo. Exige inteligência, sistema prisional, investigação financeira e capacidade de impedir que organizações criminosas ampliem o domínio sobre atividades econômicas e comunidades.
Pivetta terá ainda de administrar uma realidade peculiar: Mato Grosso cresce acima de muitas regiões brasileiras, recebe novos moradores, amplia sua produção e aumenta a demanda por serviços públicos. Crescimento econômico, nesse cenário, precisa ser acompanhado por investimentos em saúde, educação, segurança, saneamento, habitação e infraestrutura urbana.
UMA GESTÃO COM SUA MARCA
Se até agora Pivetta esteve politicamente associado a Mauro Mendes, a eleição muda essa relação.
Nos últimos oito anos, participou do governo primeiro como vice e, desde março, como sucessor. A partir de 2027, terá um mandato legitimado diretamente pelo eleitor e a possibilidade de montar uma administração com identidade própria.
A vitória também encerra uma campanha que começou muito mais equilibrada do que terminou. No fim de setembro, levantamento Quaest mostrava Pivetta com 29% das intenções de voto e Wellington com 27%, em empate técnico.
Na reta final, porém, pesquisas passaram a indicar crescimento expressivo do governador, tendência confirmada pelas urnas neste domingo.
Mais do que preservar o que recebeu, Pivetta terá agora o desafio de mostrar qual será sua própria contribuição ao ciclo político iniciado em 2019.
Eleito no primeiro turno, com uma votação que lhe dá ampla legitimidade, encontrará um Estado com recursos, obras e projetos em andamento, mas também com demandas crescentes.
A partir de janeiro, Pivetta deixará definitivamente a condição de vice que virou governador para assumir outra: a de governador escolhido pelos mato-grossenses para comandar o Estado até 2030.
MARSOS LEMOS